CLÁUDIO AJUDA-ME

… Aqui sobre o amor (Só porque sim!)

Por

… Não sou nada daquelas pessoas que acha que o mundo está todo reunido para que se encontrem coincidências, uma atrás das outras, e depois se façam leituras que nos são convenientes. Mas sou muito aquela pessoa que acredita que de vez em quando as energias se canalizam numa determinada direcção, para que tudo esteja no lugar certo. Há dois anos estava no lugar onde estou agora a escrever este texto. Uma esplanada fria, num final de tarde e um filme à minha espera. É impossível não olhar para estas cadeiras verdes e recuar no tempo. Perceber que há dois anos um encontro se tornaria na coisa mais bonita da minha vida dos últimos tempos é reconfortante. Se fechar os olhos, consigo lembrar-me do cheiro, e ver essas calças verdes, largas e desalinhadas que usaste no primeiro dia. Consigo ver outra vez o teu ar preocupado, sem perceber muito bem onde meter as mãos que disfarçavas com o ajeitar do cabelo. Lembro-me que usavas enrolado ao pescoço um cachecol péssimo, que nessa mesma noite terei feito desaparecer. Senão nessa, nas seguintes. Começaste devagar, naquele dia, a entender quem sou e descobriste rapidamente uma pessoa que nunca ninguém descobriu. As mãos acabaram em cima das minhas. O filme –  honestamente não me lembro do filme – lembro-me que vimos muitos depois disso. Devemos ter visto todos. Aquilo, que foi um pretexto para um encontro, acabou numa marca que me ficou colada à pele. Tens o melhor cheiro que conheci na vida, talvez por isso mantenha um frasco de perfume dentro da tua caixa. Vou cheirando assim um pedaço teu a cada momento que me apetecer. Há coisas que não podemos imaginar, parece que nem o melhor dos romancistas poderia escrever uma história assim como esta. Não conheço ninguém que tenha tanta vocação para desarmar as ideias todas, para tirar do sério a realidade ou para ‘desconstruir’ aquilo que me arrelia em momentos a mim e ao mundo, como tu o fazes. É uma mania irritante, mas uma excitante mania. Já tinha feito 40 anos e nunca me tinha sentido tão pele com pele com alguém. Amei-te desde o primeiro dia que te vi. Não te disse. Logo Eu! Fazer uma confissão? Não poderia fazê-lo, não queria. O importante era seguir um dia de cada vez, por ali fora a ver até onde ia. E foi longe, muito longe, muito mais longe do que se sonhava na primeira vez que olhámos um para o outro e percebemos ao balcão de um bar, numa madrugada e frente a um prato de sopa quente, que seria muito bom. Muito importante. Muito forte… para sempre. Para sempre é tempo demais? Claro que sim… Mas o amor que te guardo está dentro de uma das muitas caixas que me deste, com coisas lá dentro, inventadas por ti para que juntas fizessem um sentido. De vez em quando um sentido que só tu entendes. Conseguimos guardar para nós aquilo que era nosso e hoje, porque espero por ti agora – vais chegar novamente atrasado – lembrei-me de te escrever isto. Apetece-me fazê-lo, mesmo que não seja oportuno, mesmo que seja arriscado, mesmo que não haja nenhuma razão para o fazer, nem efeméride que o justifique, ou talvez por ser Domingo. Quero fazê-lo porque, como ouvimos os dois,  ‘temos só um coração, não nos devemos arrepender de lhe dar voz’, por isso há que aprender a viver com ele e com as coisas que ele nos dá. As que gostamos e as outras, que a isso se chama viver. Deus saberia o que fazia quando nos esbarrámos, uma coisa rara, única, preservada entre nós. Não quisemos gritar porque enquanto for dos dois não é de mais ninguém. Sabe tão bem este casúlo morno onde ficamos e nos protegemos. Ninguém entendeu nunca os meus silêncios como tu, nunca ninguém me registou fotograficamente como tu o fizeste, e talvez nunca ninguém tenha entendido tanto as tuas inseguranças extremas e certezas absolutas como eu entendi. Nao sei se será arrogância da minha parte, mas sinto que te palpito dentro 24 horas por dia, mesmo que a tua cabeça desorganize os horários e me meta sabe Deus onde. O amor que te tenho tem a força do contrário do relógio. Não que eu consiga parar o tempo, ou recuar nele… mas as memórias fazem-nos viajar tanto e tão bem, que consigo sentir-te o cheiro a creme, espalhado no corpo moreno. Que mania essa a tua de espalhares três vezes mais a quantidade de creme que um corpo precisa para se hidratar depois do duche. Que mania essa a tua de acordares a gritar pela casa como se o mundo fosse teu e a vida um musical. Que mania essa a tua de acreditares que tens direito a uma nuvem para estares a olhar para o mundo com síndrome de Peter Pan. Às vezes gostava de te olhar de frente e dizer ‘Pára! Ainda vais sofrer mais que isso. Ainda te vão desiludir mais. As pessoas ainda te vão fazer pior…’, mas tenho medo que não acredites. Tu não acreditas na maldade das pessoas. Achas que fazem todas o bem. E não fazem. Essa tua inocência estranha apaixonou-me e deixou-me com medo de te ver sem protecção contra um mundo que é tão diferente daquele que tu imaginas. Não sei o dia de amanhã. Não sei se voltarei muitas mais vezes a esta esplanada de cadeiras verdes, mas agora aqui sentado e gelado, enquanto espero que me apareças atrasado e com uns ténis que eram azuis e transformaste em cinzento, queria que fosse para sempre, seja esse ‘sempre’ o tempo que for. Dure o tempo que durar, que seja contigo, a desconversar, a desconstruir, a criar, a acreditar num mundo melhor, a falar uma língua que poucos entendem… O que me fez apaixonar por ti não foram os teus olhos ou a maneira de me elevares a um ser especial. Talvez tenha sido a tua eterna idade da inocência. Que o mundo nunca te roube isso. Que as pessoas não te assaltem a alma, porque se fizerem isso, já que a tua alma é minha, estão a roubar-me a mim também. Se o amor fosse como nos livros ou nos filmes era isto tudo tão mais simples. Não é tão complicado como o fazemos e nós fazêmo-lo tão bem. O segredo? Ser feito com amor. E de que é feito o amor? De coisas pequenas que se juntam, encaixam, fazem sentido de forma natural e ‘muito orgânica’, até que juntos na mesma matéria sejam uma só coisa que se transforma numa espécie de lençol que nos protege do bem e do mal e mesmo não nos protegendo nos dá essa sensação. A sensação de calor e conforto que só se encontra em  casa. O meu coração é a tua casa. (E não me revires os olhos, por favor!)