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… Dois anos sem açúcar (O lado B do conforto)

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… Não é assim uma coisa que mereça um destaque enorme, mas para mim foi uma vitória porque eu tentava há anos fazê-lo. Faz hoje dois anos, deixei de usar açúcar no café. Aliás, não uso açúcar em casa e em coisa nenhuma, nem café, nem chá, nem leite… No começo foi estranho, porque foram quase trinta anos a beber café com açúcar e eu sou daqueles que bebe muito café. Bebo em casa, fora de casa, para mim o café é a bebida social de eleição… Estava em Cabo Verde, o café lá é muito bom, e como já tinha metido na cabeça que um dia deixaria de beber café com açúcar ou adoçante, pensei: ‘Vai ser aqui!’. Acompanhei, como faço em quase tudo na minha vida, com uma promessa, porque acredito muito numa espécie de ‘força e sacrifício’. Lembro-me como se fosse hoje. Estava muito vento e muito calor. Pedi um café de manhã, antes mesmo de tomar o pequeno almoço. Cheirou-me muito bem aquele café. Bebi sem nada. Só o café… uma pessoa acostuma-se às coisas e depois perde o saber da verdade. Foi isto que senti quando, passados uns dias (poucos), já me questionava porque beberia eu café com açúcar durante tantos anos? Hoje continuo a beber muito café, acho que bebo muito mais do que devia, mas eu gosto, especialmente se for Nespresso, onde até o descafeinado tem o sabor do melhor café. O café é um ritual que me inspira, me relaxa, me ajuda na criatividade. É um desbloqueador de conversa, de acção, de atitude. Sabe melhor sem açúcar, porque é verdadeiro sem ele, mais autêntico. Tal como devem ser as atitudes. Esta divagação toda a propósito de nos acostumarmos às coisas e não nos darmos conta que, de tanto as fazermos e de tão acostumados a elas que estamos, não conseguimos ver mais além e as damos como única opção. Na verdade, nada é para sempre e tudo tem um lado B. Muitas vezes o lado B é melhor, é mais saudável, que foi o que descobri ao não colocar açúcar no café. Na vida é a mesma coisa. Por muito acostumados que estejamos a alguém, a um lugar, a uma casa, a uma pessoa, a um projecto, há uma altura em que temos forçosamente de perceber que um dos lados está gasto, deixou de ser prioridade e não nos está a fazer bem. Apesar de ter açúcar, tem um sabor amargo. Há dias que podemos assinalar, não por serem absolutamente marcantes, mas só porque sim. Estava em Cabo Verde, fazia muito calor e estava muito vento. O café que me chegou de manhã tinha um cheiro tão absolutamente maravilhoso que, naquele dia, naquele momento, achei que misturar-lhe açúcar estragaria aquilo tudo. Não misturei. Fiz uma escolha acompanhada de uma promessa. Não me arrependo nada. Há dois anos que não bebo café com açúcar. Da promessa falaremos outro dia… vou ali beber um Nespresso.

 

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