CLÁUDIO AJUDA-ME

… Sobre o Manel (porque não há muitos Manéis por aí)

Por

… O carinho que tenho pelo Manel Luís Goucha vai muito além do homem televisivo que ele é e no que eu me tornei. Há muitos anos, foi o Manel que me disse ‘Não desistas, muita gente vai dizer-te que não, mas tu chegas lá. Eu vejo que chegas!‘. Ele e o seu ar despachado! Na altura apresentava a Praça da Alegria, no Porto, e eu tinha recebido um telefonema, dias antes, a convidarem-me para ser seu entrevistado. Achei estranho. Eu tinha acabado de chegar à SIC, fazia as Noites Marcianas, era um puto com ar agro-beto armado em esperto e o Manel já era o Manel que se conhece hoje. Porque haveria de me querer entrevistar? Não questionei muito quando recebi o convite. Fui e pronto. A minha primeira entrevista em televisão foi dada ao Manuel Luis Goucha, a seu convite, num programa da RTP. Ele muito despachado, sempre. Eu tímido, envergonhado, fui falando da minha vida, das minhas coisas… Ele queria saber como é que um miúdo como eu, vindo lá de longe, se atreveu a dizer tantas coisas que nunca se tinham dito numa noite e em directo na televisão. Lá lhe respondi o que sabia, como tudo se tinha passado, do muito que eu estava a passar naquela semana… Se recuarmos quase vinte anos, é fácil perceber. A realidade televisiva não é a de hoje. Lembro-me de ir de véspera de comboio, de dormir num belíssimo hotel e no dia seguinte me apresentar nos estúdios,  bem mais cedo do que me pediram. Vestia uma camisa branca com quadradinhos. Fui para o estúdio, fiquei a vê-lo fazer o programa antes de chegar a minha vez e lembro-me de pensar ‘Não tenho dúvidas. É isto que quero para mim.‘ Eu já sabia, mas ali fiquei absolutamente certo que o meu sonho televisivo era aquilo. Fazer day time. Na conversa, dei ares de quem sabia muito bem do assunto, mas por dentro estava deslocado de nervos… Correu bem. O que mais me impressionou foi a maneira como dominava o programa e tudo à sua volta. Só com os olhos, ele fazia sinais e controlava o que se passava. Estava próximo das pessoas. O Manel daquela praça era o mesmo que estava na minha televisão de casa. Desde esse dia, mantive sempre uma relação com ele. Mais próxima umas vezes que outras, mas nunca o perdi de vista. À medida que fui ‘crescendo’ televisivamente, fui ouvindo alguns conselhos que me dava, alguns palpites. Fui ouvindo uma pessoa que admiro muito, muito, muito e o profissional de excelência que é e que nunca teve problema em dizer que eu estava bem, que ia no bom caminho. Senti sempre do outro lado espaço para mim. Percebi, desde cedo, que ao Manel não lhe fazia nenhuma confusão ‘ajudar’ quem chegava depois dele e isso, para quem chega, é realmente importante. O tempo passou e hoje a minha relação com ele é próxima. Não de visitar a casa um do outro, que nem eu nem ele somos disso, mas sabemos que é próxima e isso é que importa. O mundo dos afectos é assim. Recentemente, quando dei a entrevista ao Daniel, no Alta Definição, tive do Manel as palavras mais bonitas que guardo para sempre comigo. Podem ser só palavras, mas quando o mundo nos cai em cima, por uma razão qualquer, as palavras ficam.  E porque faço hoje este discurso todo? Porque o Manel está a passar um momento complicado, apesar de tudo estar a correr bem e daqui a nada estar pronto para voltar ao ecrã –  não sem antes gozar as suas férias. Acredito que passou o medo. Que teve medo e ontem, quando eu soube da notícia, fiquei colado na cadeira. Fiquei com a noção de que por um momento poderia desaparecer-me o Manel do ecrã, da vida… e eu não queria isso. Ele está pronto para muitos mais anos e outros tantos sustos, mas nunca é cedo demais para alguém elogiar o trabalho de uma pessoa e dizer o que gosta dela. Eu sou um apreciador convicto do trabalho do Goucha e não tenho nenhum pudor em dizer que amo o Manel profissionalmente (não ao ponto de não lhe querer ganhar os pontos de audiência na manhã, e bem lhe disse isso no último telefonema bem disposto que me fez um dia destes às sete e meia da manhã!). Porque gosto de gente disciplinada, trabalhadora, educada e, acima de tudo (muito importante), gente com coração de gente. Boas melhoras, Manel!

… Eu na Praça da Alegria. Estaríamos no final de 1999. Porto

Foto: Facebook de Manuel Luis Goucha

 

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