CLÁUDIO AJUDA-ME

… Não se fixem na fotografia (Tentemos ver para lá dela)

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… Quando nos despimos, não nos despimos. É mentira que o façamos. Depois de ver umas fotografias do Gianecchini que mostrei aqui e entender o que aquelas produções queriam dizer, dou-lhes razão. A nossa pele é toda igual, as razões quando a mostramos é que podem não ser e a verdade de não nos despirmos quando tiramos a roupa também. Raramente nos despimos. Quase nunca ou para poucas pessoas. Ficar nu de roupa é uma coisa. Nu de tudo é outra. Poucas pessoas me viram nu. Poucas. Pouquíssimas. A maioria que me viu sem roupa acha que eu adoro falar de famosos, adoro estar na primeira linha, que gosto de estar sozinho, acha que não gosto de dançar, que não suporto cheiro a comida, que gosto de ir ao cinema sem ninguém, que gosto de aeroportos, de roupa nova, de escrever livros práticos, de novelas, de teatro de revista, de redes sociais… as pessoas não se dão ao trabalho de perceber além da roupa que tiramos à sua frente. Eu não gosto de falar de famosos, só o faço porque é o meu trabalho e se dependesse de mim deixava já de o fazer. Eu gosto de fazer televisão onde me entrego todo e esse foi o caminho para a fazer bem feita. Eu não gosto de estar na linha da frente, incomoda-me ser o centro das atenções. É um tormento ir a uma estreia, fazer um lançamento, dar uma entrevista presencial. Eu tenho um medo horroroso da solidão e para a distrair falo sozinho, eu adoro dançar  e faço-o em casa, mas não tenho coragem de o fazer noutro lugar, não gosto do cheiro a comida porque me lembra uma casa cheia de gente numa família reunida à mesa, eu gosto de ir ao cinema sozinho mas prefiro fazê-lo em boa companhia, eu não gosto de aeroportos porque me lembram despedidas, eu odeio despedidas e eu não tenho paciência para tratar da roupa. Eu não gosto de escrever livros práticos. Eu gosto de escrever romances e tenho a frustração dos meus romances venderem metade do que vendem os livros práticos. Eu adorava ser um escritor de alma que ficasse na vida das pessoas, como tantos autores que estão na minha estante ficaram colados à minha história. Eu vejo novelas porque gostava de estar dentro de uma, eu adoro musicais porque vivo frustrado de, aos 44 anos, nunca ter feito teatro como sonhava em pequenino e onde me imagino sempre que vejo um palco. Eu só tenho redes sociais porque se transformaram numa ferramenta de trabalho e facturação. Se dependesse da minha vontade ficava-me pelo blog, menos exposto e mais próximo de mim, mas menos lido seguramente. As pessoas acham que eu adoro dar o ar de que não falo inglês. Eu não sei falar, eu já tentei, eu não consigo fazê-lo bem. Pensam que adoro viajar sozinho. É mentira! A última viagem que fiz sozinho passei dois dias fechado num quarto com medo de enfrentar a rua de um lugar desconhecido e não saber lidar com isso. Eu gosto de ter a casa cheia, as pessoas acham que eu prefiro que esteja vazia. Eu sou solidário, as pessoas acham que sou desligado. Eu gosto de mim, mas não gosto um quinto do que as pessoas julgam. Quando tiro a roupa faço-o com a luz muito ténue com medo das imperfeições. Grito que lido bem com o corpo, mas grito uma mentira. As pessoas que me viram nu nunca perceberam isso. Somos tão mais do que um corpo despido frente a alguém. Somos uns infelizes quando achamos que o corpo nu que satisfaz o outro é suficiente, se esse alguém não nos vê para lá da pele. As pessoas acham que tenho muitos amigos entre celebridades. É mentira. Não confio em quase nenhuma e tenho noção que não me vêem como um amigo, preferem ter-me como um aliado de confiança porque lhes é conveniente. As pessoas não percebem que quando digo que não gosto de abraços estou à espera que me cheguem os braços certos. Que quando digo que não gosto de beijos, quero apenas perceber se me dão por vontade ou porque lhes fica bem fazê-lo. As pessoas não conhecem nada uns dos outros. Não se vêem. Apenas se olham muito depressa e a correr. Despidos somos todos iguais, uns mais gordos que outros, mais baixos, mais altos, mais magros, mais marcados pelo tempo. Mas somos iguais. A diferença está em quem nos conhece de verdade, para lá da pele, para lá da cicatriz, para lá das estrias, para lá do medo escondido num sorriso disfarçado de tímido mas a tremer de medo. Só quem nos conhece de verdade nos pode despir por completo e não nos intimidar com o seu olhar, nem amedrontar com o que pensa do que vê.  Quem consegue isso, é porque nos percebe e lida bem com o facto de lidarmos mal com as nossas frustrações. Tenho muitas. As de não conseguir manter algumas pessoas na vida. As de não me chegar à frente para convidar um amigo para jantar com medo que do que vá pensar. A de não marcar uma festa porque não sei quem vai aparecer. As de não ter coragem de reclamar quando não me incluem onde eu acho que devia ter estado. O medo de dizer algo que não agrada a quem me agrada para não as desiludir. As pessoas são egoístas quando olham para nós num corpo nu e apenas sentem desejo ou repulsa por ele. Nós somos um zero à esquerda do que realmente sentimos, porque no momento que tiramos a roupa o que conta é o que se vê e não o que se sente… E sentimos tanto do que não mostramos e sofremos tanto com isso. Juro que sofremos. Um dia, faltei a uma festa muito importante onde estava muita gente que conheço, para onde tinha sido convidado e onde queria muito ir, porque tive um ataque de ansiedade sozinho em casa, por não ter coragem de ligar a alguém para ir comigo e não saber como lidar quando chegasse lá. No dia seguinte pedi desculpa à aniversariante por mensagem. Tentei explicar porque não fui, não sei se ficou chateada comigo, mas acho que não acreditou na minha verdade. Já trocamos sms depois disso, mas a essa nunca me respondeu. Foi talvez a primeira vez que contei a verdade a alguém e disse claramente: não fui, porque não tive coragem de enfrentar as pessoas. Não sei porque o fiz, mas achei tão feio não ir. Eu sabia que ela me queria lá, era importante que eu fosse e eu queria ir. No dia a seguir morri de inveja de ver a fotografias de quem lá esteve e do tanto que se divertiram. Ela, que dou aqui como exemplo, se ler este post vai perceber o que aconteceu e reconhecer a verdade. Custa-me muitas vezes lidar de frente comigo. Não devo ser caso raro nem único. Por isso agora me despi. Se me perguntarem porquê? Posso mentir ou dizer a verdade, vão acreditar apenas no que lhes interessa. Diga eu o que disser.

 

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