CLÁUDIO AJUDA-ME

… Sobre a dor de crescimento (no mundo de hoje)

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… Não sei vocês, mas de vez em quando permito-me questionar de que massa somos feitos. Para onde vamos quando de repente paramos para perceber o que nos rodeia, quem nos rodeia e os porquês. Eu sou muito de perguntar coisas, de tentar perceber o que se passa com quem está ao meu lado. O que vou notando é que no egoísmo da vida de cada um as pessoas se vão esquecendo da resposta, vão adiando a resposta, vão preferindo não revelar o que se passa, vão-se escondendo por trás de coisas que camuflam a verdade e moldam-se à sua maneira. Existe em cada uma delas um medo da verdade e, às vezes, entendem elas que a verdade pode sucumbir a um sorriso forçado ou a um café à própria da hora. As pessoas não se interessam. Não querem saber. Fingem que querem, mas na verdade não querem. Têm a sua vida organizada, os seus planos feitos, sentem medo quando alguma coisa os vai baralhar ou fazer sair da linha que desenharam  para eles. Não sei vocês, mas eu sinto-me numa espécie de buraco sem cor onde se olha para cima na expectativa de alguém estender a mão e dizer ‘Sou do mesmo mundo!’. E que mundo é este? Um mundo onde se fala de outra coisa além do Instagram, em que sou ‘viciado’, onde se fala olhos nos olhos, onde se aprende a dar a mão, onde se para para escutar o que o outro tem a dizer, ouvindo… Não escutando com um ouvido na conversa e um olho na inquietação do ecrã do telefone. Ouvindo com a vontade de ajudar a resolver, não ouvindo só para despachar o tempo e ‘picar ponto’ para depois se dizer que estiveram juntos. Mas não estiveram! Não se saborearam, não sentiram o cheiro, não se tocaram, os olhos não tiveram tempo de mostrar a alegria de se verem ou a tristeza de não se verem há tanto tempo, as mãos suaram de nervos mas um deles não reparou, o corpo tremeu mas há quem possa achar que é de uma corrente de ar, não se dizem coisas porque não há tempo para falar sobre elas e, se se dizem, deixam te ter a importância nesta hora que já tiveram noutras horas. Perdem-se, na imensidão da distância dos ponteiros do relógio, os pormenores de uma cumplicidade necessária para que se respire a verdade de uma relação. Não sou diferente, já o terei feito com pessoas, tenho uma parte minha que é igualmente feita da mesma ‘massa’, mas cada vez mais me culpo e entro numa espécie de tortura porque entendo que sou o reflexo de comportamentos semelhantes e dentro deste ‘buraco’ sem cor onde estou, por muito que olhe para cima, não percebo em que momento do caminho deixei de ser escutado com atenção, deixaram de me dar a mão, acharam que já não me precisavam ensinar nada porque eu não queria ou não precisava aprender… É esse o erro. Talvez seja esse o erro. Parte-se do princípio que sabemos tudo, que não queremos aprender, que não precisamos que nos expliquem… e depois percebemos que podemos ter errado mais quando revelamos que queríamos aprender. Sentimo-nos na inocência de uma criança, disposta a comer o mundo com os olhos nas palavras de quem interessa. Vestimos a nossa melhor roupa, fazemos o caminho até à escola (que às vezes à difícil até lá se chegar) porque o caminho não é igual para toda a gente. Professores e alunos têm caminhos diferentes. Chegamos à sala de aula, abrimos a mochila, tiramos o caderno, abrimos o estojo, tiramos o lápis, olhamos atentamente para o ‘professor’ e ele encanta com o seu ensinamento, tomamos notas e, de repente, sem tocar para o fim da aula, o professor sai da sala… Esperamos. Ele não volta, mas deixa a porta aberta. Naquele momento percebe-se que perdeu o interesse em ensinar, porque talvez tenhamos perdido o encanto ou ele pense que sabemos a lição toda só porque desviamos o olhar ou não demos atenção. Não sei de verdade que mundo é este onde vivemos feitos de uma ‘massa’ estranha, que quando se junta quase sempre magoa mais do que atenua a dor do crescimento. A dor que é preciso sentir quando se cresce e se quer aprender na expectativa de que o professor tenha a paciência que é preciso ter quando o aluno é menos atento ou o professor menos paciente. A dor do ensinamento não me parece que tenha que ver com a idade com que se entra numa sala de aula. Tem a ver com a vontade de não ser chumbado à primeira. Não sei vocês, mas eu de vez em quando permito-me questionar estas coisas.

 

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