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… De um pai (Que não foi filho!)

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… Ser pai é uma coisa que não se define. Não é sequer uma coisa, é outra coisa qualquer. Lembro-me, antes de o ser, que não imaginava conseguir amar com tanta força e de forma abnegada, porque nunca o tinha sentido. A Leonor nasceu na altura certa, numa tarde muito quente do mês de Maio. Nasceu de cesariana, fui eu quem lhe deu o primeiro banho, fui eu quem a pegou ao colo pela primeira vez. A minha filha era a linha que separaria, a partir desse momento, um antes e um depois. Nada, absolutamente nada, foi feito dali para a frente sem que o meu pensar parasse no dela. Os meus dias são feitos em função das suas necessidades. Como uma vez disse, a Leonor é o travão de muitas coisas que eu gostaria de fazer, de ter feito. O travão não necessariamente mau, não necessariamente bom. Mas é um travão! Estes quase treze anos desta ‘profissão’ complicada e sem manual de instruções que é ser pai foram de aprendizagem constante. A Leonor é uma menina especial, ‘a mais feliz do mundo’, como me diz tantas vezes, mimada, caprichosa, atenta, inteligente, dedicada e, acima de tudo, generosa… muito generosa. Generosa com todos, mas comigo mais ainda. Muito generosa. Porque uma filha que cresce com o pai ausente durante tantos dias e nunca lhe reclama nada só pode ser generosa. Porque uma filha que não questiona as escolhas do pai tem que ser generosa. Foi educada assim… O meu pai não me educou assim. O meu pai não foi o pai que queremos ter, não respeitou as minhas escolhas, não as entendeu, nem se preocupou em perceber, nem sequer se deu ao trabalho de as questionar. O meu pai não nasceu para ser pai. Era um homem cheio de talentos e qualidades, mas não com os filhos. Não comigo. Durante mais de 30 anos detestei o meu pai, tinha milhões de motivos para isso. Queria um pai como todos tinham, queria alguém que me dissesse por onde era o caminho, me entendesse, ou pelo menos me tentasse explicar porque não entendia. Queria alguém que me dissesse que, acontecesse o que acontecesse, eu teria sempre um colo, um lugar para voltar. Que deveria ir sem medo, que ele seria a rede. Queria alguém que me dissesse o que estava certo ou errado. Nunca o fez. Não foi pai, como eu entendo que os pais devem ser.  Tivemos uma luta de anos que acabou o ano passado. Acabou com a morte dele. Fez-se em mim uma paz e um sossego de alma. Parou de sofrer. Parámos todos. Eu terei a minha parte de culpa na história, mas não é ainda a altura de fazer essas contas, acima de tudo não perdi o meu foco. Se ele (o meu pai) não tivesse sido tão mau, eu não seria hoje tão bom. Seguramente! A esta distância, agradeço-lhe isso com a certeza que fiz sempre aquilo que todos os filhos devem fazer pelos pais. Nunca lhes faltar ao respeito. Aguentei-me firme e forte até ao último minuto. Muitas vezes não foi fácil. Os seus últimos dias foram complicados. Tínhamos conversado dias antes de ser internado. Ele sabe que eu tinha razão. Eu sei que ele não tinha, por isso fiquei em paz. Ele morreu com as suas ideias definidas e não as alterou. Nisso, é preciso tirar-se o chapéu. Não concordava com nada do que ele dizia, mas defendeu o seu ponto de vista até ao último suspiro. Hoje é Dia do Pai, um dia que só faz sentido se tivermos orgulho nos nossos filhos e nos nossos pais. Eu tenho um orgulho imenso na Leonor. Ela faz de mim um pai feliz. Muito feliz! O meu pai não soube ter um filho que se orgulhasse dele e perdeu o melhor que eu lhe podia ter dado, uma neta orgulhosa do seu pai.

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