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	<title>Memórias &#8211; Eu, Cláudio</title>
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	<title>Memórias &#8211; Eu, Cláudio</title>
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		<title>… Hoje, como ontem. Ou talvez não!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Cláudio Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 25 Sep 2020 18:23:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[… Publiquei o outro dia uma edição de duas fotografias separadas por dois anos. Não é segredo para ninguém que sou seguido há anos por um terapeuta que muitas vezes me ajuda a entender as coisas. Porque acontecem, porque são vistas de certa forma e uma das tarefas que me aconselha a fazer é isto [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p align="JUSTIFY">… Publiquei o outro dia uma edição de duas fotografias separadas por dois anos. Não é segredo para ninguém que sou seguido há anos por um terapeuta que muitas vezes me ajuda a entender as coisas. Porque acontecem, porque são vistas de certa forma e uma das tarefas que me aconselha a fazer é isto que fiz esta semana. Ver um registo que ache graça e passado tempo &#8211; na mesma data- fazer um igual. Olhar para eles juntos e perceber as diferenças&#8230; Como disse na altura, fisicamente existem algumas, porque dois anos não são dois meses e porque a idade a partir dos quarenta ajuda a que tudo se vá acentuando mais na direcção oposta. Mas o que o terapeuta quer e o objectivo do exercício é perceber a mudança interior. O que está dentro de uma e outra fotografia e que não se vê, não se nota, não se sabe e possivelmente não se sente, porque não há coragem para sentir. É preciso coragem para sentir, para deixar espaço e sentir. Temos muito medo de o fazer, não lidamos bem com a verdade de frente&#8230; pois aceitei o desafio dele, e fiz exactamente a fotografia igual, com as mesmas calças, no mesmo banco, na mesma parede e na mesma posição. Noto-lhe diferenças arrasadoras no interior. Se conseguirem façam o mesmo. Era uma pessoa que não sou passados dois anos. &#8216;Mudamos tanto&#8217; é uma expressão que usamos frequentemente quando olhamos para uma fotografia, mas a mudança não está no corte cabelo, no peso nem na roupa que se usa (neste caso pouca, que eu acho graça assim) a mudança é dentro. Há dois anos tinha uma cabeça, uma ideia, uma forma de pensar e hoje, não estando muito longe do que pensava na atura, as ideias estão em outra direcção. Dois anos foram suficientes para perder algum encanto e mudar de direcção. Dois anos foram fundamentais para perceber que me entraram coisas como bagagem para nunca mais saírem porque nos marcam de tal forma que ou ficam ou ficam. Não há outra hipótese! Não são coisas más. Atenção, não se invente, imagine, nem coisa que o valha. O exercício é muito mais importante que qualquer coisa que se resume a uma banalidade mundana ou coisa que o valha. O que importa é o que está dentro. A mudança que sofremos quando o tempo passa, chama-se crescimento. As dores do crescimento dizem os entendidos no assunto. Podem ser dores que nos <em>&#8216;sabem bem!</em>&#8216; Juro que me diz isto muitas vezes, e eu não entendo no momento em que as sinto, ou que ele me diz, mas com a distância do tempo, percebe-se que ele tinha razão. E como dou conta disso olhando para uma e outra fotografia e percebendo o que sentia numa e noutra. Percebendo, principalmente o que se ganhou no espaço que as separa. Podemos olhar e preferir pensar no que se perdeu. Mas o exercício é de valorização, quer que valorizemos o que ganhamos de um lado a outro. Eu não sou o mesmo. Impossível! Tenho dentro de mim uma mala cheia de coisas que guardo preciosamente, que me aconteceram estes dois anos e que serão escritas para seu nunca me esqueça, porque são preciosas. O que temos de mais precioso são as nossas memórias. Não é a casa, o carro, a roupa, o corpo tonificado, nem a mesa guardada no melhor restaurante da cidade. Com a saúde, o que temos mais precisos são as memórias. Se as guardarmos, valorizarmos e tirarmos delas lições, somos ricos. É isto que tenho aprendido na terapia. Ainda não sou rico. Mas serei!</p>
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		<title>… Voar, com o coração colado ao peito!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Cláudio Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Jul 2020 22:54:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Actualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[&#8230; Por estes dias, um amigo mandou-me esta fotografia. Emocionei-me quando a recebi, é impossível não fazê-lo. Chegou num dia especial e sou dos que mantém a opinião que as memórias são tudo o que temos. Já vos deve ter acontecido, um dia qualquer no meio da rotina, esquecemos tudo o que está à volta [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p align="JUSTIFY">&#8230; Por estes dias, um amigo mandou-me esta fotografia. Emocionei-me quando a recebi, é impossível não fazê-lo. Chegou num dia especial e sou dos que mantém a opinião que as memórias são tudo o que temos. Já vos deve ter acontecido, um dia qualquer no meio da rotina, esquecemos tudo o que está à volta e debruçamo-nos só no que o registo fotográfico nos lembra. Eu consigo sentir o cheiro. Está é a minha Leonor. Ela, quando me cabia nos braços amparada pelas palmas da minha mão e Eu embevecido com o melhor que tenho na vida. Ela, quando cheia de manhas parecia pedir que os meus dedos a acalmassem ao tocar-lhes as costas suavemente como se fosse um teclado de piano, enquanto lhe cantava qualquer coisa. Ela, que adormecia serenamente depois de uma birra que fazia, quase sempre ao final da tarde, mas quando a ia meter na cama abria os olhos como se estivesse muito desperta e cheia de vontade de escutar o que se falava na sala&#8230; O cheiro, o espreguiçar miudinho, o respirar contra o peito, o coração a bater, o apertar dos dedos pequeninos prontos para agarrar tudo&#8230; saudades. Quando vejo para esta fotografia percebo que mudou quase tudo, menos a forma como olho para a minha filha! Quando digo que mudou tudo é porque mudou mesmo. Eu sou outra pessoa, naquela altura pensava ter para a minha vida um caminho semelhante ao que tenho hoje profissional mas pessoal estava longe de o imaginar assim. Se pensar melhor ainda, acho que o mundo está diferente, logo as diferenças em nós teriam que vir ao de cima. Lembro-me muito destes primeiros dias de Leonor e do medo que tinha de não conseguir. Ainda hoje penso isso, &#8216;<em>e se estou a fazer alguma coisa errada?</em>&#8216; .. não se sabe, não temos um livro de instruções para educar os filhos, resta-nos ir fazendo o melhor que sabemos ou intuímos. A intuição é que deve guiar a nossa vida. Sou muito dos que pensa assim. Hoje mais que nunca, por isso quando se junta a intuição à razão não há nada que se nos meta pela frente. Importante é seguir. E quando olho para o olhar que tenho pela Leonor nesta altura já tinha dentro dele muita vontade que se orgulhasse de mim. Prometi fazer tudo para que isso acontecesse. Acho que tenho conseguido ser um bom pai, sinto que ela está na fase em que preferia que o pai não fosse &#8216;conhecido&#8217; mas sente-se orgulhosa do caminho. Escutou muitas conversas e disse-me uma vez um frase muito bonita sobre voar que eu já usei muitas vezes, &#8216;<em>voar está para as pessoas como a vontade de fazer mais e melhor sem levantar os pés do chão&#8217;</em>. Penso exactamente igual, e acho que de sonhos devemos todos ser recheados e nunca poderemos permitir que nos cortem as asas, porque se quem nos conhece não fica feliz com o nosso voo é caso para duvidar do coração dessa pessoa. No lugar dele poderá ter uma gaiola&#8230; e ainda por cima fechada. Eu tenho amigos que ficam felizes com o meu voar e eu com o deles. Eu fico sempre muito feliz e orgulhoso quando os meus afectos levantam asas, descolam e não têm medo de seguir&#8230; correndo os riscos, mas seguindo. É bom ter amigos e registos destes, que nos remetem, para lá dos voos que fazemos, para o lugar que nos pertence. Para o lugar onde, aconteça o que acontecer, fomos colo. Temos colo</p>
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		<title>&#8230; Ribeira de Baixo, com a tristeza a escorrer-lhes no corpo!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Cláudio Ramos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Dec 2019 20:35:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Actualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[&#8230; Para quem está em Lisboa, Ribeira de Baixo fica quase a quatro horas de caminho. Para quem está na minha terra, Ribeira de Baixo fica quase a cinco horas de distância. Eu faço sempre, a cada dia que passa quando falo com a gente da minha terra a distância em tempo. Mais em tempo [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">&#8230; Para quem está em Lisboa, Ribeira de Baixo fica quase a quatro horas de caminho. Para quem está na minha terra, Ribeira de Baixo fica quase a cinco horas de distância. Eu faço sempre, a cada dia que passa quando falo com a gente da minha terra a distância em tempo. Mais em tempo que em quilómetros. Parece que fica mais perto. Menos longe. Mais quente. Há alturas em que estou (no máximo) três semanas sem ir à minha terra, sem pisar as minhas pedras como já aqui vos contei, sem ver a minha gente na terra da minha gente. E quando passa esse tempo sinto uma ansiedade que se explica por saudade ou apenas falta, ainda não se descobriu. Sinto falta. Dos meus, seguramente, mas os meus podem vir aqui. Posso falar com eles. Podemos encontrar uns e outros a meio do caminho ou em outro caminho qualquer se for caso disso. Eu sinto muita falta da minha terra. Da minha casa. Da minha gente sentada na porta de casa, encostada ao parapeito da janela ou assomada ao postigo. Eu sinto falta do barulho baixinho que se faz nas ruas e do tempo vagaroso que quase não passa por elas. Eu sou assim. Não sei se sou diferente. Eu fui sempre assim. Eu sou muito ligado à terra porque sempre tive claro que sou o que sou porque percebi cedo que nunca poderia virar as costas nem à terra nem ao que ela me ensina. Quando vou no caminho, ganho-lhe o sotaque, o peito fica mais leve, respiro melhor e entra uma paz tranquila que me alegra. Eu gosto da minha terra. E gostaria de outra terra qualquer, de um lugar que fosse, sempre que esse lugar fosse o lugar que me viu crescer e testemunhou tudo a meu respeito. Tudo. Ontem, quando dei de caras com a reportagem que se fez n&#8217;O Programa da Cristina&#8217; sobre a barragem de Daivões e a gente que a barragem vai empurrar para fora da sua terra, fiquei triste. Durante aqueles largos minutos vi-me no espelho de pessoas que, mais crescidas que eu, cheias de passado ao lado, tinham o progresso a castrar-lhes tudo. A Barragem vai chegar e inundar tudo. Não são só tijolos, hortas, ruas, escola, igreja, café, talho, mercearia, praça&#8230; é tudo. Vão olhar para lá e vão ver água. Aquelas pessoas que lá estão, vão deixar de ver a memória, não nos podemos esquecer que muitas vezes nem a memória conseguimos guardar. Há alturas que é preciso vê-la. Aquelas pessoas vão deixar de andar nas ruas, de estar na porta, de se encostarem à janela, de se assomarem ao postigo. Pelo menos naquele postigo e esse postigo é que é importante, porque foi dali que viram a vida acontecer. Foi naquelas ruas que eles brincaram, que os filhos andaram, que os netos caíram. Foi da janela da casa que viram os filhos partir para fora e é à entrada da porta que os veem chegar de férias. Eu não sei como lidaria com o progresso a arrastar-me para fora de mim. Não sei mesmo. Juro que não sei. Falar de fora é fácil, criticar é ainda mais fácil. Ali o que vi foi a minha gente. A gente da minha terra a ficar sem ela. Quando na reportagem a senhora diz emocionada que a Figueira não lhe vai voltar a fazer sombra e se abraça a ela, foi como se me dessem um murro no estômago. Eu no seu lugar iria sentir-me impotente e com o peito a rasgar. O que senti ali foi isso. Foi transportar-me para o peito dela. Do marido que a consolava desconsolado e de olhos vazios que não o deixavam chorar ao mesmo tempo, pelo amparo e pela vergonha. Fiquei revoltado, porque vi um casal da idade da minha mãe dizer firmemente que vai abandonar o País, porque o País os está a mandar embora de casa sem a possibilidade de guardar, em lado nenhum o melhor que se pode ter: a memória. Não sei como lidaria com isso. Juro que não sei. Não queria lidar. Hoje, falei com uma colega minha, a Mafalda, ela está ali na secretária ao lado, disse-me que não tinha terra nem lugar. Eu acho que ela não consegue entender, o que é &#8216;ir à terra&#8217;, deixar a terra, ver a gente da terra sair e voltar. Ver as pessoas ficarem porque gostam, porque não podem sair, porque envelhecem ano seguido de ano sentadas todas as tardes, as tardes todas no mesmo banco na praça onde está o café central. Eu não gostava que me roubassem as pedras da rua mesmo que já esteja alcatroada. Lá por baixo estão as pedras e nas pedras estão as pegadas das pessoas que vão fazendo a nossa vida. Quando o progresso inundar com um cobertor de água o berço onde cresceram e se fizeram gente não se lhes vão ver as lágrimas. Não se vão ver porque se confundem com a água que lhes rouba tudo ou porque já secaram por dentro de tanto as verterem na esperança que alguém as escute escorregar. Eu não sei se para a minha colega Mafalda, que vive num grande centro urbano, a reportagem teve o impacto que teve em mim, ou talvez até nem tenha em pessoas que vivem em terras como a minha. Mas pouco importa. Posso ser só eu. Pode ser só uma pessoa a viver naquela terra naquele lugar&#8230; é dela. É dessa pessoa, não se pode dizer adeus a tudo a troco de uma casa nova, ou de uma quantia qualquer que alguém decide ser justa para apagar o que escrevemos. Seja ela qual for. Não paga a dor que fica quando não se pode voltar ao lugar que nos amarrou a vida toda. Onde vimos crescer e morrer. Pode ser uma parvoíce minha. Mas não queria nunca que isso me acontecesse. Não queria que isto acontecesse a ninguém. Com a água, naquela barragem serão afogadas à força as imagens do passado daquela gente. Assassinadas portanto. Não gosto disso e quando virem a reportagem &#8211;<a href="https://sic.pt/Programas/o-programa-da-cristina/videos/2019-12-09-Familias-de-Ribeira-de-Baixo-despedem-se-das-suas-casas-que-vao-ficar-submersas-E-o-ultimo-natal-que-vou-comer-aqui-na-minha-mesa"> se ainda não viram</a> &#8211; só queria que se metessem dentro dos sapatos destas pessoas. De vez em quando não custa. Mesmo que os donos dos sapatos tenham os pés cheios de sangue.</p>
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