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… Os meus 45 (aquela reflexão básica)

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… Sou dos que gosta de celebrar as datas e de lhes dar importância. O dia dos meus anos é a minha viragem do ano, muito mais importante que o réveillon. Gosto de fazer festa, de ter gente à volta, de receber mensagens, parabéns, presentes, atenção… Mas também gosto (muito) do silêncio que escolhi para este dia. Sei que é contraditório, mas, por opção, neste dia raramente atendo o telefone, não vejo as mensagens e, se responder, faço-o mais tarde. É dia de festa, mas também de reflexão. Sempre! O meu lado mais apurado (que será também o feminino) é o de estar constantemente a tirar a temperatura a tudo. Faço-o com frequência, não seria diferente no dia em que assinalo 45 anos. Olhando para trás, e em traços muito largos, tenho a vida que escolhi. Faltam-me coisas, mas tenho tantas outras boas que, apesar de saber que mereço mais, acho injusto pedir seja o que for. Acredito que Deus, o Universo e os seus enviados à terra terão ainda coisas muito boas reservadas para mim, que serão concretizadas com um forte empurrão desta força de vontade que tenho e que herdei da vida. Estou contente com ela (com a vida), mas de vez em quando sinto uma espécie de frio que se instala dentro com a falta do quente que não se compra na loja mas, em abono da verdade, devo dizer que sempre achei que seria o preço a pagar. Vou andando, disfarçando, rindo num lado e outro, mas no fundo sabia que o preço a pagar seria o tal frio que de vez em quando se instala, que não chega a arrefecer-me, porque há tanta coisa quente e boa (como as castanhas) a acontecer-me que o que preciso é olhar para elas e valorizar cada uma de forma preciosa. A cada ano gosto de fazer coisas que me superem, que me desafiem, que me marquem. Gosto de me fazer presente, de olhar para trás e perceber que cresci a todos os níveis, e este ano não foi diferente. Muito trabalho, muitos projectos, muita realização, coisas construídas pessoal e profissionalmente. Assim, vale a pena olhar e perceber que os doze meses que passaram não foram em vão. Cresci muito, apreendi umas coisas, ensinei outras, tenho a certeza! Perdi algumas coisas, porque eu sou da opinião que quando se escolhe se está sempre a perder qualquer coisa. Desiludi-me com pessoas, mas ‘descobri’ outras. Estou mais assertivo, selectivo, mais rigoroso mas menos caprichoso, menos cheio de mim. Mas continuo teimoso, apaixonado, vaidoso, a amar o azul escuro, o cheiro a torradas, a cama feita de lavado, o café acabado de tirar, a casa a cheirar a limpo, um restaurante com pouca gente, uma esplanada ao fim do dia, férias em lugares que me são confortáveis, vontade de conhecer gente que não me conhece, mas acha que sim. Aos 45 anos continuo a achar que o Alentejo será sempre o meu lugar, que jantar em casa com amigos é muito melhor que no mais conhecido e luxuoso restaurante, que falar de tudo e mais alguma coisa com eles é a melhor escola que podemos ter, que confiar um segredo a alguém é o maior sinal de que se gosta, que há várias maneiras de gostar sem que se atropelem umas às outras. Que fazer televisão bem feita é como respirar e alimentar o respirar de outra gente que precisa dos nossos sentidos para lhe fazer sentido. Mas aos 45 anos continuo a não saber falar Inglês como gostaria, continuo a demorar muito a adormecer. Continuo a não gostar de falar nas primeiras horas do dia, porque me recuso fazê-lo antes de ter os sentidos alerta. Continuo com a certeza que o silêncio me faz tanta falta como a água, que os banhos são excelentes para ter ideias e sei que continuarei indeciso na hora de escolher a refeição, irei detestar sempre beijar quem fuma, praias cheias de gente, trânsito, filas, carne de porco, cheiro a batatas fritas, pipocas no cinema. Continuo resmungão, disciplinado, rigoroso, profissional, com pouca capacidade de delegar porque acho que dificilmente alguém faz melhor que eu. A minha paciência é menos agora que o ano passado e não gosta nada de ser posta à prova. Aos 45 serei melhor amante que até aqui e o melhor namorado que se pode ter, porque amar é um estado de alma que se alimenta até que o outro chegue e beba dele. Aos 45, continuo a piscar os olhos para a fotografia em forma de defesa, a fechá-los quase completamente quando me rio e ainda não aprendi a gostar dos meus dentes, da minha voz, mas arrisquei rapar o cabelo e adorei. Prometo voltar a fazê-lo este ano outra vez, não depilei as pernas uma única vez mas continuo com o complexo de as ter tortas. Continuarei generoso, amigo, cavalheiro, bem disposto, divertido e com uma capacidade estranha de lidar muito bem com os grandes problemas e, por outro lado, de deixar-me derrubar apenas com um gesto ou uma palavra fora de tom de uma pessoa de quem gosto ou aprecio. Não sei como será daqui para a frente, mas até agora acho que a melhor reflexão que posso fazer é que sou um tipo porreiro. Apaixonado pelos dias de Outono, porque as cores do chão e o cheiro da terra são maravilhosos nessa altura, por cerveja de garrafa, Lambrusco fresco, gelado de menta e chocolate preto, continuo a gostar de arroz de pato, mas acho que não comi uma única vez este ano. Também gosto de queijadas e não comi. Também gosto de bolo de arroz e não comi. Percebe-se aos 45 que todos os dias o corpo nos mostra qualquer coisa nova. Que a pele começa a ter dificuldade em manter-se no lugar certo, que os cabelos brancos nos dão charme, mas nos lembram quando nascemos, que o ginásio é fundamental e que sem disciplina nada se consegue. Nesta idade descobri que uma massa cozida e meia dúzia de coisas lá dentro não me deixam fazer má figura, que velas com cheiro são tão importantes como ter sempre uma garrafa de champanhe no frigorifico, olhamos para ela e sabe a celebração. Parabéns a mim, que apesar de ser muito complicado, tenho uma tecla que descomplica tudo. Chama-se verdade. Acredito que bem usada, a verdade é meio caminho andado para não se complicar nada e não decepcionar o outros. Verdade, gratidão e algum sentido de humor que me leva a acreditar que cantar pode ser uma saída. Porque gosto de cantar. Como gosto de dançar. Sei que continuarei a fazê-lo, fora de tom e no passo errado. Uma espécie de risco calculado que não faz mal a ninguém. Viver com risco faz falta… A vida sem risco –  como disse no outro dia à minha Mateus – ‘é uma folha em branco’… E quando temos uma folha em branco, há urgência em preenchê-la. Vou fazer por preencher estes 45 anos com tudo. Obrigado por não me falharem! Vocês, cada uma à sua maneira, fazem parte da folha.

 

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