CLÁUDIO AJUDA-ME

… Do alto do terraço (Ou do sonho)

Por

… A qualidade da fotografia é péssima. Mas este sou Eu. No terraço da casa da minha mãe no Alentejo. No mesmo terraço onde eu e todos os meus irmãos olhamos para o céu, vezes sem conta, sentados no depósito de água que abastecia a casa. Olhamos para o céu e para um futuro. Era ali que cada um à sua maneira falava. Ou uns com os outros ou sozinhos com as estrelas. Era para ali que muitas vezes fugíamos por tantas coisas ou por coisa nenhuma. A casa é enorme, mas aqui talvez seja o único lugar onde raramente se vai hoje, porque fica no cimo. No alto. Fica mais perto do céu. É a melhor vista da Vila, o privilégio de ver como se fosse um postal da vila todo pintado à mão e ao vivo. É impossível não voltar atrás e perceber através das memórias que por aqui passou tanta coisa. Mudou tanta coisa e realizamos tanta coisa daquelas que se pediram às estrelas. Das que falávamos uns com os outros ou que pensamos sozinhos. Era aqui, que víamos os casamento ao domingo celebrados pelo padre Florêncio. A gente toda bem arranjada no Adro da Igreja, os noivos a chegar, os noivos a sair, os rebuçados lançados ao ar e a nossa vontade de os apanhar lá em baixo, o arroz espalhado entre pedras. Conseguíamos ouvir com atenção o que os convidados falavam enquanto entravam nos carros e esperavam desorganizados de forma a fazer depois uma fila barulhenta que daria a volta pela Vila com fitinhas brancas atadas nas antenas. A noiva era a última a sair da igreja. Tínhamos vista boa para avaliar tudo. Era domingo de casamento. Nós não estávamos lá. Mas víamos tudo de camarote, sentados no terraço com os olhos postos no que acontecia. Foi também aqui que muitas vezes vi passar funerais de gente que se despedia carregada num caixão, seguida a passo lento por umas largas dezenas de pessoas ou por meia dúzia de gente, dependendo de quem se despedia. Foi neste terraço que sempre se ouviram gritos, barulhos, gargalhadas de gaiatos e gaiatas na rua a brincarem noite fora nestas noites quentes de verão. Gente sentada à porta, roupa estendida nas cordas, portas abertas à vizinhança. Tudo se mantém até hoje. Passaram já tantos anos. Se fechar os olhos vejo tudo outra vez. Se respirar fundo sinto o cheiro e se puxar pela memória consigo ouvir o que dizíamos na altura. Está fresco. Vou para dentro. A porta que era de madeira encarnada comida pelo tempo, é agora de vidro e alumínio. Mais resistente, mais moderna, mais bonita.

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