CLÁUDIO AJUDA-ME

… Falamos de memórias? (Fui ver o Cinema Paraíso)

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… Quando vos falo de memórias não me venham chamar saudosista. Talvez seja, talvez sofra com isso, mas também posso ser apenas uma daquelas pessoas que regista as coisas e as guarda numa espécie de gaveta que se abre e fecha à velocidade que a vida avança. Vi ‘Cinema Paraíso’ trinta anos depois de ter estreado. Vi no cinema, emocionei-me no cinema e sobre o cinema. Não sei se foi exactamente a história do menino  que fazia frete na igreja e se foi apaixonando pelas fitas e pelos beijos censurados, porque não percebi muito bem se ele estaria apaixonado pelo cinema ou pelo lugar de onde o cinema saía. A magia onde tudo começa: uma cabine apertada com o amigo mais velho que lhe ia ensinando a vida, depois de ele o ter ajudado a passar no exame de quarta classe. De verdade não sei o que me encantou no filme, sendo que saí de lá encantado. Eu adoro cinema Italiano. Há falhas de som, não tem a qualidade que talvez estivesse à espera, mas encantou-me tudo no filme. O cenário, a banda sonora, que é das coisas mais bonitas de se ouvir, e a emoção de um miúdo que de tanto amar uma coisa se sentiu obrigado a afastar-se dela, porque sofria. Ou porque alguém achava que ele sofria. Não sei se não foi egoísmo. Talvez mais egoísmo que amor. No fim do filme o que me apetecia perguntar ao protagonista era: como teria vivido ele o desaparecimento do ‘seu’ Cinema Paraíso, se tivesse ficado os trinta anos que se ausentou da sua aldeia na Sicília? Acho que sofreria menos porque acredito muito que aos poucos nos vamos acostumando à ausência. O que aconteceu com Totó é que saiu da sua terra e voltou homem feito, com sucesso, reconhecido na área que o viu crescer, mas sem o amor da sua vida. Voltou com os amigos marcados pelo tempo, com a casa renovada, o quarto cheio de memórias, uma mãe cerimoniosa e deparou-se com a dura realidade de ver desaparecer o seu cinema e o seu Alfredo. Não é à toa que se leva à letra a mensagem ‘Vai, e não voltes nunca mais. Nem que te chamem!’. Não é por acaso que se vai sem olhar para trás. Totó foi. Foi e entretanto cresceu, fez-se Salvatore Di Vitta. Voltou diferente, é natural. Mas, se lhe tivesse perguntado, acho que me responderia que preferia ter ficado. Nunca saberemos se não se arrependeu. No Cinema Paraíso mora agora um parque de estacionamento. Há trinta anos, como agora.

 

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