… A propósito de ser Gay!

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… Ser gay não é uma escolha. Não é uma opção. E não é algo que tenha que ser ‘aceite’ ou ‘tolerado’ pela grande maioria, da mesma forma que nascer com olhos castanhos, cabelo loiro, dois braços e cinco dedos também não tem que ser aceite ou tolerado. Ser gay é uma característica e é assim que deve ser visto. Quem é gay, graças à ignorância de muitos, tende a sentir-se culpado naquilo que é a sua natureza e por isso, em muitos contextos vive escondido com medo – e muitíssimas vezes terror – que se descubra ou desconfie. Nunca gostei da expressão ‘assumir-se’ ou ‘sair do armário’ porque ninguém tem de assumir coisa nenhuma nem está metido num armário à espera que se abra uma porta. Ser gay, vai além da sexualidade. É preciso que se entenda isso! Desde que publicamente disse que sou gay, não há um dia que não receba uma mensagem de alguém que vive de perto esta realidade na busca de um conselho porque não o conseguem em mais lugar nenhum. Isto é a Prova do medo e da – ainda – muita falta de informação, por incrível que possa parecer. Sempre defendi, e mantenho que as bandeiras deixam de o ser quando tudo se tornar enquadrado na naturalidade dos nossos dias e é isso que desejo. Mas também sei que ainda não é assim, e basta estar atento ao que acontece para ter certeza que estamos a dar passos atrás. Por isso considero ser tão importante que pessoas como eu – porque temos alguma visibilidade – contem a nossa história, dizer ‘sou gay’ e explicar como chegamos aqui. Atenção; não é porque o faço que acho que todos o devem fazer. Não acho mesmo nada isso! Cada um faz o que quer, como quer e quando quer no que diz respeito à sua intimidade, só sinto a responsabilidade de juntar a minha voz. Das coisas que mais me marcaram até hoje, foi quando um professor de psicologia me pediu para passar uma conversa com os alunos sobre o que sentia no momento em que contei o que se passava comigo. É apenas um exemplo e apesar de cada vez mais achar que a minha intimidade é uma coisa sagrada para mim, tenho também a certeza da responsabilidade de dar a cara e voz pelos muitos que vivem com medo de se sentar com os filhos, os pais, os amigos e dizer o que lhes vai no coração. Tenho a obrigação de denunciar todos os actos de homofobia absurdos que se vêem todos os dias de forma encapotado. Também os vivi e se não os vivo agora é porque tenho a noção plena que sou um privilegiado na forma como tive a capacidade individual de gerir tudo. Mas fui, até ao momento em que publicamente disse ‘gosto de um homem’ muito atacado. Atacado por gays, atacado por heterossexuais, atacado por associações que achavam que deviam ter um voto na matéria, atacado por gente que queria que o meu tempo fosse o deles e atacado por miúdos e homens que usavam a sua ignorante masculinidade para me tentar diminuir. Há gente muito ignorante, há gente má e há gente criminosa que deve seguramente pagar pelo que faz, quando voluntária ou involuntariamente obriga alguém a viver com medo. Aquela gente que diz ‘aceito, não acho mal, até é educado, eu conheço um amigo do meu filho, não acho mal…’ essa gente que não entende que a força dessas palavras afunda ainda mais quem está num buraco só na busca de alguém que o ajude a respirar. Ser gay é acima de tudo um acto de amor connosco mesmo, porque é preciso gostarmos muitos de nós para que nada do exterior nos atinja. No meu caso, já trabalhando em televisão fui usado por humoristas de forma humilhante, fui apontado por críticos e cronistas como se a minha condição sexual fosse mais importante que o meu trabalho, fui olhado de lado por colegas de trabalho, fui colocado de parte… mas fui resistindo. Tive a gigante sorte de ter a minha filha e para ela ter um pai homossexual é uma coisa natural. Para ela e para os amigos dela. Tive essa sorte, porque foi educada assim, assim é que deve ser. Tive a sorte de não me deixar derrubar muito tempo, mas não foi fácil. Há muita gente que não suporta, que não aguenta e que todos os dias paga uma factura alta. Este texto, que escrevo hoje – sendo a primeira vez que escrevo sobre o assunto – serve para duas coisas. Para que se o estiveres a ler e te sentires identificado entendas que tu és mais forte que a maldade criminosa dos outros e serve também para aqueles que o estão a ler e a metade dele reviraram os olhos com pensamentos de ‘mais um maricas a dar palpites’, perceberem que o que fazem é crime e se o escrevi hoje, é porque não está tão distante o tempo em que em Portugal ser homossexual era severamente punido. Passaram ‘só’ 40 anos e apesar de ser um direito que achamos que está adquirido, basta olhar à volta para entender que podemos perder tudo de repente. Por isto e muitas outras coisas nunca serão demais as vozes que se juntam para que não se percam direitos adquiridos pelos muitos que deram a voz e o corpo na batalha, há anos, para que hoje, eu pudesse escrever  isto livremente. Obrigado!

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