… Apenas para pensar no assunto!

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… É preciso ter espaço dentro de nós para a infelicidade. Um dia li que temos de deixar chegar os dias infelizes, recebê-los, fazer-lhes sala e depois deixá-los ir embora. A vida é assim! A semana tem dias de mais para que sejam todos felizes. Um dia é longo, e contém tempo e espaço para deixar entrar a tristeza. Nunca acreditei naquelas pessoas que se garantem felizes a vida toda ou que apregoam a felicidade como se tivessem uma fórmula mágica e, de maneira egoísta, a guardassem só para elas. Não é verdade. Eu não acredito. Acredito que os dias de tristeza nos fazem falta e nem sequer acho isso apenas por ser importante sentir o oposto para valorizar o que realmente temos e somos. Digo porque sempre senti que, sendo o meu coração elástico, dentro dele cabe tudo. Se não tudo, pelo menos muito e nesse muito que é grande cabe a tristeza que se instala devagar. Uma espécie de resfriado porque começa a sentir-se lentamente na ponta dos dedos, ramifica ao resto do corpo até que se instala confortavelmente no coração. Não deve haver melhor lugar para a tristeza que o corpo de uma pessoa feliz. Não podemos mostrar medo nem a devemos alimentar. Devemos, como li também algures, deixá-la entrar e instalar-se. Não pode vir de malas e mochilas, como os parentes afastados que não queremos em casa. Recebemo-los bem um ou dois dias, mas não queremos que fiquem a dormir, porque sem nos darmos conta o tempo passa e num instante o espaço é tão deles como nosso. É assim que faço com a tristeza. Quando não aparece, sinto a sua falta, chego a chamar por ela, a tentar que se aproxime. Consigo ouvir-lhe os passos, a respiração e conheço-lhe as vontades. A de vir, a de ir embora e a de chegar para se instalar… Se a tristeza tivesse uma cor seria cinzento-escuro. Primeiro, uma nuvem cinzenta, depois, uma manta preta que nos cobre. Escura, seca, rija. Uma armadura? Pode ser que sim! Mas se não temos a chave para a abrir, o melhor é não a trancar. Deixar tudo apenas fechado no trinco. Assim é fácil ir-se embora. Há sempre motivos para receber visitas como estas e, quando não os temos, esporadicamente inventamo-los. E já que chegou e se instalou provisoriamente, vamos tratá-la bem. Sem exagero, mas vamos! Não servimos um lanche fausto, mas servimos um chá morno. Não mais do que isso porque não se pode sentir demasiado em casa. Mas não pode perceber que a ignoramos, que a disfarçamos, que a tratamos mal… A tristeza, como a alegria, precisa do afeto para ir à sua vida. Vivemo-la no tempo certo, deixamo-la falar, explicar porque veio, bebe o chá e vai-se embora… convidamo-la a sair. Temporariamente, porque um dia volta. E vai voltar devagarinho, como quem não quer a coisa, a ver como a recebemos. E chega pronta para ir até ao dia que fica para sempre… só ficando se o dono da casa deixar. Trate-a bem. Mas não a adote! Escrevo hoje isto porque nas minhas secções de terapia o terapeuta me disse que eu não me deveria sentir mal por em algum momento me sentir triste como me sentia no dia da consulta. Que fazia parte da vida e que só sentindo essa ângustia da tristeza daria valor a todos os outros momentos onde o peito não aperta nem os olhos humedecem por qualquer coisa. Cheguei a casa e percebi que – para não variar – o terapeuta tinha razão. Não nos adianta esconder coisa alguma. Adianta viver cada coisa no tempo certo na medida do que conseguimos… Se não conseguirmos, procuramos ajuda a quem nos ajude a conseguir.

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