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… Nunca será apenas um simples par de sapatos!

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… Nunca será um simples par de sapatos. Juro que nunca serão uns simples sapatos. Não é porque têm o salto dourado, a etiqueta de luxo ou o preço com três dígitos. Não é por isso. É porque de certa forma significam a caminhada. Acredito que quando pensou neste par de sapatos – para lá de todas as brincadeiras que fizemos quando os recebi e tentei disfarçar que me emocionei atrás de um riso nervoso – pensou na minha caminhada. No caminho que fiz, e que ela acompanhava à distância, mas principalmente no deste ano quando lhe passei a entrar em casa desatinado. Primeiro a medo, pela porta do lado, depois mais à vontade e, aos poucos, uns dias mais atinado que outros, fui fazendo todas as manhãs o caminho da minha casa para a casa dela a passo acelerado com vontade de chegar, tive sempre a sensação de ir a compasso para um lugar bom. É assim que defino a casa, ‘um lugar bom’. Hoje, quando dou o passo e entro no hall, já lhe reconheço o estado de espírito só pelo olhar que trocamos, por exemplo, na esquina do frigorifico ou então enquanto torramos uma fatia de pão e preparamos um café que deixa a casa inteira a cheirar à ‘casa da mãe’. E ali estamos. O tempo que for preciso ‘apenas’ a ser vizinhos. Como um vizinho deve ser. Os passos que dei desde a saída da minha casa, há muitos anos, até chegar a esta ombreira da porta foram alguns e para todos os gostos. Mas sinto que depois de ser convidado a entrar nela, foram dados os passos que eu sempre pretendi que fossem na medida certa – e a acontecer – preferia pecar por falta que por excesso. Não há nada mais fora de tom que dar um passo só porque sim e arriscar magoar quem nos convida para sua casa. Com sapatos desta natureza é preciso saber muito bem a direcção do passo. Acertámos o nosso passo no momento em que os meus pés pisaram a casa pela primeira vez, ainda o chão não tinha um risco, como se o sapato de um fosse para o pé do outro. Acertámos na conversa, no caminho, na dança. Dançámos já muitas vezes ali em casa. Danço melhor com ela que sozinho. Dançámos tantas vezes como as vezes que rimos, e rimos tantas como as vezes que chorámos. Frente a frente ou meio de lado para não se ver. E cantámos, falámos alto e ainda por cima de boca cheia. Andamos sempre de um lado para o outro numa variação de tom que exigem os passos em casa como exigem na vida. Nem sempre se ri. Nem a toda a hora se chora. Somos quatro pés ali dentro. Os meus não andam sem os dela e ela gosta de me sentir o andar ali por perto. Como qualquer vizinho cujos passos sentimos em casa, onde a casa tem vida, onde acontecem coisas, onde as coisas se dividem. Estes sapatos nunca serão uns simples sapatos. Serão estimados. Honrados como devem ser e cada vez que os olhar vou lembra-me sempre que há uma caminhada feita antes deles e outra depois. Seguramente. Façam eles o caminho que fizerem. Obrigado vizinha!

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