CLÁUDIO AJUDA-ME

… A querida Helena (A minha história com Ela)

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Há uma Helena Ramos que as pessoas não conheceram. Uma mulher bem disposta e de muita fé. Uma Helena sempre pronta a ajudar e muito disponível para colocar na sua agenda o nome de alguém que precisasse de uma palavra… Foi do que me lembrei de repente quando me disseram que tinha morrido a Helena. Eu conheço a Helena há muitos anos. Muitos. Ainda eu não fazia televisão, apenas sonhava com ela e já conhecia a Helena… A História é longa mas, para que entendam parte da sua generosidade, eu era um miúdo desconhecido que ligava do Alentejo para falar com a ‘sala’ das locutoras de continuidade da RTP. Ligava muitas vezes, porque tinha a curiosidade de saber como tudo funciona. Estavam elas no edifício antigo na 5 de Outubro em Lisboa. Ligava muitas vezes e muitas vezes me ‘despachavam’ o que seria natural, até que um dia calhou atender-me a Helena. Atendeu-me e explicou-me como tudo funcionava. Dedicou bons minutos do seu tempo a explicar-me o que fazia e com quem.  Permitiu que lhe ligasse outras vezes e que mais tarde a entrevistasse para um jornal regional. A Helena Ramos era para mim, na altura, a mais bonita, elegante e próxima apresentadora de televisão. Eu teria uns quinze anos, e a primeira vez que a tinha visto teria sido anos antes em Elvas, quando apresentava o concurso ‘Ou vai ou taxa’, se não estou em erro com o António Sala, que ali foi feito ao vivo. Desse tempo tenho apenas a memória de a ver no palco com um vestido às riscas encarnado e branco. Depois, como contei, cruzámo-nos pelo telefone e, quando vim para Lisboa, comecei a estar com ela frequentemente porque tínhamos amigos comuns… Demorei anos a contar-lhe que era eu o ‘Cláudio Nascimento’ do Alentejo que lhe ligava a contar os sonhos de ser apresentador, mas contei. Contei um dia num jantar que tivemos no Casino Estoril entre amigos… Ela lembrava-se e riu-se muito com uma gargalhada sonora que lhe era característica. Sempre a imaginei bonita, elegante, sofisticada e cheia de delicadeza com os gestos. Fomos sempre falando, até que lhe contei, mais à frente, um segredo meu (que contarei um dia) e tinha que ver com ela. Quando lhe disse isso, emocionou-se tanto que nessa noite me ligou e falámos muito sobre a minha fé e a fé dela. Era uma mulher de muita fé e achava que termos falado há muitos anos ao telefone e, depois de nos conhecermos, simpatizarmos tanto um com o outro, não podia ser um ‘acaso’. Era coisa do Universo. Em abono da verdade, não posso aqui dizer que fomos amigos íntimos, mas posso dizer que falámos de muitas coisas ‘íntimas’. Uma das últimas era o enorme desagrado que Helena sentia pela forma como a sua carreira se desenvolveu na RTP. Ela achava que merecia mais. Não exactamente um melhor programa, mais destaque ou mais protagonismo. Talvez mais atenção. Foi-me dito por ela, eu concordei, porque sempre achei que a Helena era muito mais que a locutora de continuidade remetida para os temáticos da RTP, onde lhe deram espaço. Ela tinha a noção de evolução televisiva, mas também do seu papel, e não era uma noção errada. Era consciente e realista e, por ser realista e consciente, sabia que podia ter feito mais. A Helena seria em qualquer lugar do mundo, com a sua história, parte da história da televisão pública. Para mim será, obviamente que sim. Porque eu tenho memória… Quando fiz o ‘Alta Definição’ mandou-me uma mensagem emocionada com a minha história e voltou a falar-me da Fé que é preciso ter para, muitas vezes, dar um passo que nos parece maior. Padeceu os últimos tempos, doente sem alaridos e discreta, porque a Helena, apesar de ser pública há muitos anos, gostava de se manter discreta no seu mundo de amigos mais restritos, aqueles que hoje sentem mais que todos a sua falta, aqueles com quem se encontrava aos Domingos à tarde para petiscar e rir. No momento em que escrevo estas linhas é também neles que penso…Neles, nos irmãos e nos seus pais. Partiu muito cedo a Helena. A Helena que me mandava mensagens a concordar ou discordar dos meus comentários em directo, a que me ligava a falar da cor do vestido que usaria nos Globos de Ouro, a que apreciava a minha alegria nas manhãs e os meus telefonemas em inglês nas noites do ‘Passadeira’. Partiu a Helena e com ela talvez a primeira imagem que tenho de apresentadoras de televisão. Era bom não nos esqueceremos disto. Ela iria ficar agradecida. Era uma mulher grata.

 

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