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… A Verónica e a Filipa (Ou a Filipa e a Verónica)

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… As flores chegam-nos do nada ou aos molhos em forma de cores bonitas para sublinhar qualquer momento da nossa vida. As pessoas podem chegar aos pares. Elas chegaram mais ou menos ao mesmo tempo. Nenhuma me conquistou logo. Nada disso! Uma tinha um ar apagado e era muito criança quando me comecei a cruzar com ela, a outra cruzava-me com ela e tinha sempre um ar aborrecido. Uma e outra eram amigas. Uma cresceu ao meu lado e fez-me crescer quando demos as mãos num projecto que nos trouxe tantas coisas boas e a outra apareceu-me na vida por acréscimo num jantar onde rapidamente se percebeu que era para a vida. Uma e outra são parte de mim hoje e parte grande do que sou. As pessoas não são iguais. Elas são muito diferentes uma da outra, com diferenças que me dão graça e semelhanças que me irritam mas que, não se completando entre elas, me completaram a mim. Sempre! Uma, a Verónica, chegou primeiro, ganhou espaço e enraizou-se como uma planta das que gostamos muito e que não queremos que mude a estação do ano para que a planta não perca o seu  estado viçoso. Era muito pequenina quando a vi pela primeira vez. Pequenina e tímida. Pequenina, tímida e decidida. Depois, a Fátima Lopes juntou-nos num desafio televisivo que nos obrigou a correr o país de um lado para o outro e assim criámos uma espécie de regadio constante onde todos os dias, depois de plantar, fomos regando o que nos ía acontecendo e crescemos. Crescemos tanto um no outro, que sabe coisas de mim, que até eu me esqueço que são minhas. Como se as tivesse confiado para que me possa esquecer. O alívio da confiança cega. Crescemos muito, como aquelas trepadeiras que se agarram a uma parede e não se soltam mesmo que sejam alinhadas de vez em quando. De repente olho e vejo que a menina tímida é uma fervorosa idealista para um mundo melhor. Está decidida a fazer disso a sua bandeira! A Verónica tem, aparentemente uma serenidade assustadora, porque a vida não lhe foi fácil e apareceram demasiadas pedras, espinhos e ervas daninhas neste pedaço de Jardim que deveria ser bonito por natureza. Tem saltado de pedra em pedra de forma a manter o equilíbrio, a aguentar-se, a restaurar os pedaços que murcham e quase secam… cresceu tanto, que já discutimos de igual para igual sem o medo de a contrariar arriscando que me arrume ao canto de um lugar qualquer sem que me grite. Isso sim. A Verónica nunca grita. Se não está a ser escutada, prefere calar-se.  A outra, a Filipa, chega-me pela Verónica. Tinha no dia-a-dia o ar enfadado de uma daquelas flores que não estão secas nem murchas, mas que estão sem brilho. Os ombros baixos, o andar arrastado e os olhos pouco expressivos. Um dia jantamos todos e ali ficamos…. Ficamos até hoje, porque quis o destino que trabalhássemos juntos uma vez por acaso e eu tivesse percebido que era isto que queria ao meu lado sempre que fizesse sentido. Passou a ser uma planta nova. Uma Filipa que começava a fazer uma coisa nova, mas que queria fazer mais, criar, inventar, encontrar a solução em vez de perder tempo no problema. Juntamos as secretárias, os pratos ao jantar, o grupo de amigos e criamos um género de alegrete onde mesmo que entrem novas flores, verduras ou espinhos, estamos amarrados de forma a que, quando um está a secar, consiga beber alguma coisa do outro para voltar a fazer sentido. Nunca trabalhei com ninguém com quem me identificasse tanto mas também nunca conheci ninguém tão desorganizada. Neste caso que tudo fica menos compreensível quando eu lido mal (muito mal) com falta de método, foco ou desorganização, mas entre este amontoado de coisas todas  damos tudo quando percebemos que estamos a secar e é preciso um murro na mesa ou um abanão nas ideias que ajudam a que a organização de um, case na perfeição, com o caos da outra. A Filipa sonha. Sonha muito mas falta-lhe a coragem que teve a Verónica de sonhar alto demais e deixar cá em baixo as plantas que a enraizaram. Precisa acreditar que é capaz de crescer de florescer fora deste vaso onde se sente bem e confortável. A água está morna e a cor mantém-se. Ela precisa de um choque térmico, de outras cores, de ver outros jardins que conhece mas para onde se recusa mudar porque gosta do cheiro desta terra onde está plantada. Precisa ser levada devagar ou então muito repentinamente. Mas precisa ir. Precisa ir antes de voltar a baixar os ombros, a perder o brilho nos olhos ou a arrastar os pés. As flores mudam muitas vezes de lugar em nossa casa, é nosso costume meter cada uma deles onde o sol lhes dá melhor ou então não. Depende do que precisam. Não podemos é deixar que percam a beleza de ser flores, mesmo que não estejam debaixo dos nosso olhos quando estamos sentados no sofá.  Se fosse jardineiro, seriam elas as duas flores plantadas à entrada do meu jardim. Cada uma com um caminho seguro guiado por um bonito muro de arbustos, com aventuras pelo meio, sonhos, verde, muito verde e acabava numa praia onde existisse uma maquina fotográfica para ambas registarem tudo. As duas gostam de mar e de fotografar. Refugiam-se por trás das lentes. As duas sabem que a verdade delas é mais verdade quando tiram a tampa da lente, e através dela conseguem ver o jardim no seu todo. Quase sempre, demoramos muito na vida a chegar ao nosso jardim perfeito, mas é nossa a responsabilidade de irmos escolhendo e guardando as flores que encontramos no caminho, para que depois, lá à frente, sejam plantadas e o jardim fique perfeito. Faça sentido. Podia ser um jardim de Amores Perfeitos, que é uma flor tão bonita… Hoje, estas minhas duas grandes amigas fazem anos. Estão de parabéns. A minha filha fez ontem, a minha irmã há uma semana. São as pessoas que nos marcam a vida que têm de estar no nosso jardim. Disso não tenho dúvidas. Parabéns meus amores!

 

 

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