CLÁUDIO AJUDA-ME

… Saiu-me o Euromilhões (Já se deu conta que a si também?)

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…  Sou pai há 14 anos. É seguramente o meu projecto de vida, o de maior responsabilidade e sem dúvida aquele onde tenho de aprender todos os dias. Porque todos os dias há uma coisa nova, um risco que se corre, uma decisão que se toma, uma palavra que se diz, outra que se escuta e algumas que silenciamos, porque os silêncios são fundamentais no crescimento, assim como o ‘não’ na hora certa… Tenho uma filha maravilhosa. Não me canso de o dizer, porque é o que sinto e terei de estar muito grato a Deus e à vida. Sou abençoado e hoje faz-me sentido repetir isto… Não o digo por acaso. Fazer televisão no chamado Day Time (horários de manhã e tarde) dá-nos uma noção real todos os dias, caso não a tivéssemos, do que se passa para lá da nossa rua. Coincidências de alinhamento, por estes dias o programa focou-se muito na voz de pessoas que lutam desesperadamente e com um amor incomensurável, uns pelos seus filhos, outros por crianças que os tocam porque os rodeiam e para que eles tenham uma qualidade de vida melhor, já que o destino quis que não nascessem saudáveis ou, por força de uma qualquer circunstância, tenham deixado de estar na totalidade daquilo que queremos e desejamos para os nosso filhos. Uma das convidadas dizia a seu tempo que ‘ter um filho saudável é acertar no Euromilhões’ mas que ‘muitas vezes damos o caso como garantido e não valorizamos’. Ao ouvir esta frase senti um arrepio porque, na verdade, é isto que acontece e é isto que nos passa. Eu tenho a consciência disso todos os dias e é isso que agradeço sempre, mesmo que de vez em quando o dia-a-dia se atropele com outras coisas. Hoje é importante fazermos uma reflexão geral sobre nós, sobre quem nos rodeia e das muitas prioridades que nos assaltam durante o dia no meio desses atropelos. Andamos preocupados com as notas da escola, com o aparelho nos dentes, com a cor dos óculos, com o deitar cedo, com o ballet, com as actividades, com a festa dos anos, com o tempo que passam ao telefone, o que vestem, o que querem ser quando crescerem, porque falam, porque não falam, porque querem ir ou porque querem ficar… Esta ‘profissão’ sem manual, que se chama pai (mãe), deixa no ar tantas inseguranças e durante tanto tempo que perdemos demasiado tempo com coisas que podem ser acessório quando não damos o valor real daquilo que temos em casa: um filho saudável! Esta é a maior graça. Não quero com isto dizer que se negligencie o resto. Era o que faltava! Quero apenas pedir algum travão nas exigências que temos com eles e muitas vezes (talvez mais até) connosco. Não seremos os pais perfeitos, nem eles os filhos que temos na nossa cabeça. Deixemo-nos apenas ser pais, para que eles possam ser filhos com tudo o que têm nessa condição, e têm tanta coisa. No programa da manhã na SIC, hoje, falávamos de cadeiras de rodas para as crianças irem à praia, no outro dia de um parque aquático para meninos que precisam do contacto com a água para sentirem o estímulo e que têm a qualidade de vida reduzida por situações diferentes… E nós, que temos a felicidade e enorme sorte de sermos pais de filhos saudáveis, não percebemos o bom que é os nossos filhos irem à água pelos próprios pés e vontade. Gastamos tempo a reclamar da hora a que vamos, do tempo que demoramos a ir, do creme que deviam usar e não usam na quantidade que desejamos, do chapéu que não está na cabeça, do estacionamento ao chegar, do trânsito a voltar… Claro que é importante, mas temos tudo aquilo que muitos pais queriam ter e não podem ter. Não têm como nós. Nós podemos ficar sentados na toalha da praia a ver os nossos filhos irem de encontro ao mar, correr, brincar, fazê-lo de livre vontade e voltarem para que novamente reclamemos de qualquer coisa…. Há pais que não. Os que conheci hoje vivem na imensa felicidade de ter descoberto uma maneira de levar o filho à praia sentado numa cadeira de rodas especial. Ontem falámos de pais que estão felizes por banharem os filhos entre repuxos de água num parque aquático que foi inaugurado em Portugal, em boa hora, graças a ajuda de gente que se envolve de coração. Todos eles fazem (ou tentam fazer) disso a sua normalidade. Eu não sei porque escrevi isto agora, mas achei que deveria fazê-lo. As histórias que vivo dentro do programa não raramente vêm comigo para casa e tento encontrar em quase todas um paralelismo com a minha realidade. Tento perceber onde começam e como acabam. São histórias de pessoas que vivem longe, que não nos são nada, mas que aceitam dar um testemunho ao mundo, para que o mundo perceba que há outros mundos além do nosso, e que o nosso muitas vezes é confortável. Se alguém um dia me perguntar pela importância de fazer televisão, além de muitas outras coisas, esta é uma delas: mostrar mundo ao mundo. A Leonor ligou-me hoje com uma das suas inquietações da adolescência e eu tentei contornar a situação com as inquietações de pai de uma adolescente. Temos conseguido saber gerir este ‘negócio’ que é o crescimento sem nos depararmos com grandes dores. De vez em quando, dou comigo a reclamar. Talvez reclame demais, ou talvez não. Não sei! Nesta altura da vida não me permito a audácia de saber o que está exactamente certo, por excesso de zelo, ou errado, pelo contrário. Do que tenho pensado ao longo destes dias, do que tenho vivido com a minha filha e da alegria que sinto ao ver o sorriso das minhas sobrinhas, apetece-me apenas deixar que se divirtam, que se sujem no chão, que não nos irritemos tanto quando não nos respondem ou quando não querem comer a sopa. Que é nossa obrigação aprender a relativizar, porque somos crescidos e temos que ter a noção da sorte imensa que temos em casa, por ver os nossos filhos alegres e barulhentos de sujidade, a viver aquilo que entendemos como ‘normalidade’ na normalidade que cada um vai aprendendo a ter sem grande dores. Sinto-me uma pessoa de muita sorte. Tenho o Euromilhões em casa! Há muita gente como eu… Perceba se eventualmente não é o seu caso. Ou seja, tem o Euromilhões em casa, mas está constantemente insatisfeito com o prémio que lhe calhou em vida. Como se fosse um dado adquirido. Não é! Meus amigos, diz-nos a realidade de todos os dias que não é um dado adquirido, mas já que o temos, vamos valorizar. Sempre! A fotografia que ilustra este texto foi publicada pela revista VIP e regista um dos muitos momentos divertidos e felizes que temos enquanto pai e filha, na altura em que tentámos registá-lo para sempre na modernice de uma selfie. É destes sorrisos que são feitos os números do meu Euromilhões.  E os seus? Pense nisso!

 

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