CLÁUDIO AJUDA-ME

… Sobre a mudança (E os reflexos dela no corpo)

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… As mudanças fazem-nos tremer por dentro. Eu gosto de mudanças. Mas para mim, se tivessem uma cor durante o seu processo, seriam cinzentas, porque o cinzento é uma cor sem definição. Nao é branco nem é preto. É cinzento! Com ela, chegam uma data de emoções que nos confundem na contabilidade do deve e do haver. Perdem-se coisas. Perdem-se sempre coisas quando se faz uma mudança. Não vale a pena achar-se que não ou fingir que o que se perde não é tão valioso como aquilo que pensamos que ganharemos. As mudanças custam a todos, mas nem todos as olham da mesma forma. Eu olho de lado para elas, não com medo do que me trazem, mas com medo do que me levam. Levam-me as pessoas, levam-me pedaços de histórias, levam-me momentos e rotinas e eu gosto disto tudo. Serei incapaz de não mudar por medo quando estou confiante de que é o melhor para mim, mas sou capaz de paralisar por completo e assistir à minha mudança como se ela não tivesse que acontecer, só para fingir que fica tudo como está e um dia, a uma hora qualquer, acordo mudado com tudo o que isso implica. Todas as mudanças trazem a novidade e a novidade, ao mesmo tempo que me agrada, pode não me assustar, mas deixa-me estranho. Esta estranheza que carregamos todos, aqueles que em algum momento da nossa vida somos levados a olhar para uma seta que nos indica um caminho. Não sabemos o que está no fim do caminho, mas sabemos que está ali a seta. O coração fica apertado. Muitas vezes, sem nos apercebermos, os olhos humedecem e o corpo treme. Sentimos arrepios e pensamos que são sinais. Estes arrepios podem ser festas de gente que faz parte da nossa história, mas que, pelas escolhas de cada um, passará a estar em outras histórias, abandonando a nossa devagarinho. Isso faz-me confusão. Quando os olhos humedecem é porque ficam tristes de perceberem que deixaram de fazer parte da rotina das mesmas pessoas e aí o coração aperta. Resta-nos respirar fundo e acreditar. Acreditar que o passo que a seta indica é o melhor. Fazer esforço para alimentar a vida com os mimos das escolhas feitas e exigir não deixar mimos antigos. Permitir sentir. Quando escolhemos temos de perceber que estamos a fazer o certo. Claro que não sabemos o que vem, mas sabemos o que fica. Podemos gostar do que fica, mas às vezes o que fica não é suficiente e o coração pede mais. A alma pede mais. A razão pede mais. A vida pede mais. O coração pede mais. Mas o coração é o que mais sente. O coração não foi ensinado a lidar com a ausência das rotinas e por isso tem de ser novamente educado. Outra vez educado. Outra e outra vez e todas as vezes que a mudança surgir. A mudança é necessária, muitas vezes urgente, para que os olhos que humedecem com ela, humedeçam da alegria de ver escrever outra história, para que o corpo que treme de ansiedade passe a tremer da vontade de recomeçar, para que o coração que agora está apertado por deixar de estar voltar a apertar quando sentir o orgulho estampado na alma pela escolha feita. Na hora da mudança, acredito que não é só a mim que o corpo treme.

 

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